2. ENTREVISTA 31.7.13

GILBERTO CARVALHO - ''FOMOS OMISSOS"

Ministro diz que governo tem muitas conquistas, mas se acomodou e no deu respostas para questes urbanas graves, aumentando o mal-estar da populao
por Paulo Moreira Leite 

PROTESTOS - Gilberto Carvalho diz que as manifestaes foram positivas para o Pas 

Um dos mais fiis auxiliares do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, aos 62 anos, viveu na semana passada um de seus grandes momentos como ministro da Secretaria-Geral da Presidncia da Repblica. Catlico de ir  missa todos os domingos, seminarista na adolescncia, Carvalho sempre foi o principal elo entre o PT, o governo federal, os movimentos sociais e a cpula da Igreja Catlica. Na semana passada, quando o papa Francisco desembarcou no Pas para a Jornada Mundial da Juventude, Carvalho esteve no Rio para receber Sua Santidade, encontrar militantes do movimento catlico e fazer um de seus exerccios prediletos: conversar sobre poltica. Nos intervalos, deu a seguinte entrevista  ISTO.

"Alguns cartazes representavam o que h de pior no Pas. O preconceito, o elitismo e a excluso

Dom Pedro Casaldliga dizia que no devamos falar em voto de pobreza, mas fazer um voto de convivncia com os pobres"

Isto - Com a histria de quem foi morar numa favela, aos 18 anos, como militante da Teologia da Libertao, como o sr. v a atuao do papa Francisco? 

Gilberto Carvalho - Francisco  um papa desconcertante em relao a todas as formalidades recentes da Igreja. Ele no perde uma oportunidade de afirmar sua vontade de aproximar-se da populao, do homem da rua. Seu sapato, de sola grossa,  muito diferente daquele calado vermelho e chique (usado por Bento XVI). Na conversa com a Dilma ele trajava uma cala preta por baixo da batina, no eram vestes feitas sob medida. Andou pelo Rio num Fiat, carro tpico de um cidado de classe mdia, dispensou os seguranas. Por mais que isso tenha causado preocupao a ns, como governo, pois temos a obrigao de cuidar de sua segurana, ele fez o possvel para entrar em contato com a populao. Para a tradio recente da Igreja,  um choque.

Isto - Esse comportamento lembra a Teologia da Libertao, to perseguida pelos antecessores de Francisco?

Gilberto Carvalho - Claro que no  a Teologia da Libertao que empregava um modelo de anlise marxista e at ajudou a quebrar uma viso inocente da vida em sociedade e do problema das pessoas, mostrando a realidade das classes sociais e mesmo da explorao das classes. No  isso. Francisco no criou uma teologia revolucionria. Mas faz um esforo para entender a pobreza, ser solidrio com os pobres. Um dos mestres mais importantes em minha formao religiosa foi o bispo do Araguaia, dom Pedro Casaldliga. Ele teve muita importncia durante a poca da ditadura, segue meu amigo at hoje e sempre fez uma observao valiosa.

Isto  O que ele dizia?

Gilberto Carvalho - Dizia que no devamos falar em voto de pobreza. Deveramos fazer um voto de convivncia com os pobres e que isso era o mais importante. A aproximao permite o entendimento, a compreenso. E  isso que o Francisco est fazendo. Todas as falas dele, todas as mensagens, tm como tema a situao dos excludos. Seu primeiro deslocamento para fora de Roma foi uma viagem para Lampedusa, ilha que serve como ponto de entrada de imigrantes que fogem da pobreza da frica e costumam ser parados na fronteira. So atitudes que formam um conjunto na direo de uma Igreja popular. 

Isto - Quem o sr. acredita que pode se beneficiar com a visita: o governo ou a oposio? 

Gilberto Carvalho -  preciso tomar cuidado com as dedues de cunho eleitoral porque elas no so automticas. Seria totalmente maluco algum pensar que vai tirar proveito eleitoral da visita do papa. Francisco encontrou um Pas em movimento. Veio ao Brasil depois de grandes manifestaes, que obrigam o governo a se abrir para o dilogo e mesmo a se repensar. Francisco trouxe valores que so muito importantes para serem discutidos em nosso pas, hoje, como solidariedade e fraternidade, para estimular o engajamento dos jovens. 

Isto - Por qu?

Gilberto Carvalho - Qual  o risco nosso, hoje? Conseguimos incluir 40 milhes de pessoas. Conseguimos manter o emprego, apesar da crise econmica internacional, num nvel bastante elevado. Mas, do ponto de vista de valores, falta muito. No nos interessa que esses novos consumidores venham a se confinar nos valores do consumismo, do individualismo.

Isto - Como avaliar as manifestaes?

Gilberto Carvalho - Elas foram muito positivas para o Pas, mas havia uma ambiguidade. Trouxeram uma proposta de democracia participativa, deixando claro que as pessoas tm um grande desejo de influenciar diretamente na poltica. Tanto do ponto de vista coletivo como do indivduo, uma coisa muito diferente do que ocorria em nosso tempo. Ns somos do panfleto, do carro de som, e mesmo do sindicato, que precisa se repensar. Era sempre com base no coletivo. Mas a internet, alm da participao coletiva, pelas redes sociais, tambm permite um engajamento menos coletivo, mais individual. A pessoa est em casa, sozinha, diante de seu computador. Clica l eu vou, eu apoio, eu protesto. Escreve o seu post individual, envia sua mensagem. Agora, nos protestos, o computador foi para a rua. O indivduo chegou  manifestao com seu cartaz, sua palavra de ordem. Isso mudou bastante.

Isto - Como assim?

Gilberto Carvalho - Houve de tudo nas manifestaes. Voc teve coisas muito positivas, mas teve coisas horripilantes. A luta pela melhoria dos servios pblicos foi importante, a comear pelos transportes coletivos. Tambm foi importante denunciar a represso policial e pedir o fim da corrupo. So causas importantes, que fazem bem ao Pas. Mas houve manifestos individuais muito complicados.

Isto - Quais?

Gilberto Carvalho - Eu vi, por exemplo, a foto de um cartaz em So Paulo, segurado por uma moa, que dizia assim: Manifestao de elite? No, seu ignorante. Manifestao dos que pagam seu bolsa-esmola. Esse cartaz  representativo do que h de pior no Pas. O preconceito, o elitismo, o individualismo e a excluso. Da que eu vejo a importncia da batalha no campo dos valores. Precisamos trabalhar no Pas uma hegemonia de valores positivos. Nessa perspectiva eu acho que a vinda do Francisco pode nos ajudar na disputa desses valores. 

Isto - Muitos observadores criticaram o discurso de Dilma com o argumento de que ela forou uma proximidade das aes do governo com a pregao do papa, como se tentasse puxar brasa para sua sardinha.

Gilberto Carvalho - Acho que nesse ponto a presidenta estava muito  vontade para lembrar essas semelhanas, pois elas so reais. Ningum pode negar que o governo Lula e o governo dela deram prioridade ao combate  pobreza e  solidariedade. Se ela fosse presidente de um governo neoliberal, favorvel ao Estado mnimo, essa comparao seria postia, falsa. Mas, no caso, foi muito natural. Quando Francisco fala da globalizao indiferente, est dizendo uma frase que soa como msica para quem trabalha a solidariedade e quer diminuir a diferena.

Isto - Em 2010, a campanha de Dilma enfrentou uma questo difcil, sobre aborto. Ela passou por momentos delicados, pressionada por bispos ligados a Igreja Catlica. O sr. acredita que isso pode se repetir? 

Gilberto Carvalho - Acho pouco provvel. Por tudo o que tem dito at aqui, o papa est deixando claro que, usando uma expresso religiosa, ele considera que a misericrdia est acima da lei. Eu no estou dizendo que ele vai mudar a posio da Igreja, muito menos que est pensando em liberar o aborto. Mas acho que ele no vai fazer disso sua prioridade. Vai ocupar-se de outras questes. No vai terar armas por causa disso. Ele no  um papa dogmtico, como Bento XVI, que foi responsvel pelas questes doutrinrias do Vaticano. Francisco veio da periferia de Buenos Aires, onde se preocupava com a populao carente. Os valores da vida, para ele, sero mais importantes que os valores da lei. Por isso est preocupado em mostrar a ligao dos valores do cristianismo com a prtica social. 

Isto - Os protestos tambm mudaram a campanha presidencial. Como entender a queda da presidenta Dilma nas pesquisas?

Gilberto Carvalho - A discusso sobre os protestos est no incio. Minha avaliao  que ns realizamos muitas conquistas interessantes, mas ficamos acomodados. Esquecemos, particularmente, da questo urbana. No s o transporte coletivo, mas tambm a violncia. Fomos omissos. Esse processo se desenvolvia h muitos anos, sob vrios governos, mas ns no soubemos dar respostas necessrias. O resultado  que a vida nas grandes cidades ficou impossvel de ser vivida. At que veio a famosa gota dgua. Na Tunsia, a gota dgua foi o protesto daquele vendedor ambulante que cometeu suicdio e parou o pas. Aqui, o processo teve incio com os garotos do MPL (Movimento Passe Livre). Eles comearam o protesto. A violncia policial foi a gota dgua que fez a sociedade reagir. Acendeu a chama da indignao. Ligou o descontentamento de quem tem carro e no consegue ir para casa e de quem est dentro do nibus. 

Isto - Houve outros fatores? 

Gilberto Carvalho - Muitas coisas foram se ligando para criar uma conscincia de um certo mal-estar. As pessoas perceberam que podiam ter emprego, que podiam ganhar mais, que a vida estava difcil embora tivesse melhorado bastante. A Copa virou motivo de descontentamento, quando poderia ser de orgulho. Mas havia o dinheiro mal empregado. As remoes de moradores, em reas de transporte urbano, no foram bem feitas. A responsabilidade maior  das prefeituras, mas o governo federal est ligado, porque forneceu as verbas. 

Isto - Qual  a sua concluso poltica desse processo? 

Gilberto Carvalho - No acho que h o questionamento de um projeto iniciado pela chegada de Lula ao governo. Na Europa as pessoas se revoltam porque perderam direitos. Aqui, porque querem mais. Dilma tem razo em defender a reforma poltica com participao popular. Ela fez a interpretao correta dos protestos e deu uma resposta. Tanto que o plebiscito e at a Assembleia Constituinte tm grande aprovao popular. Acho que o governo deve insistir nessa bandeira, mesmo que corra o risco de perder. Nossa poltica deixou de ser uma disputa de idias, mas uma guerra por dinheiro. Essa sempre foi uma tradio em partidos que esto na oposio. Hoje, dentro do PT, isso j acontece.  muito grave. A reforma  uma chance de o Pas mudar isso.

Isto - No seu ntimo, o sr. chegou a torcer pelo Volta, Lula?

Gilberto Carvalho - Quando o Lula lanou a Dilma, era para valer. Pensar num fracasso da Dilma seria pensar numa derrota do Lula, candidata dele. Seria uma quebra da autoridade dele. Lula sabe que a volta ao governo  o risco Michael Schumacher, campeo de Frmula 1, que teve um retorno melanclico s pistas.

